Saturday, 06 de June de 2026



Durante décadas, a oncologia mediu seus avanços principalmente em meses de sobrevida, resposta tumoral e taxas de cura. Mas um novo movimento dentro da medicina começa a ganhar força internacionalmente: entender o que acontece com a vida emocional, social e psicológica dos pacientes, especialmente os mais jovens, depois do diagnóstico.

Na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que acontece entre 29 de maio a 2 de junho, em Chicago, nos Estados Unidos, esse debate ganhou espaço em uma sessão educacional dedicada aos desafios psicossociais enfrentados por pacientes jovens com câncer.

“O impacto vai muito além da doença”, afirma a psico-oncologista Cristiane Bergerot, líder nacional da especialidade de equipe multidisciplinar da Oncoclínicas, que apresenta a discussão durante a sessão “Beyond Survival: Emotional and Psychosocial Wellbeing of Young Cancer Patients”.

Segundo ela, o aumento dos chamados “cânceres de início precoce”, diagnosticados em adultos jovens, vem transformando não apenas o cenário clínico da oncologia, mas também suas demandas emocionais, sociais e financeiras.

“Para muitos pacientes, o diagnóstico acontece justamente durante a construção da carreira, criação dos filhos, planejamento familiar, desenvolvimento de relacionamentos e formação da própria identidade”, explica Bergerot. “Medo da recorrência, ansiedade, depressão, toxicidade financeira, preocupações com fertilidade, desafios relacionados à parentalidade e incertezas sobre o futuro frequentemente passam a fazer parte da experiência do câncer e, muitas vezes, persistem além do tratamento.”

A fala da especialista reflete uma preocupação crescente na oncologia moderna, a de que sobreviver ao câncer não significa necessariamente recuperar a vida que existia antes dele. Hoje, diretrizes internacionais da própria ASCO já recomendam que pacientes sejam avaliados rotineiramente para ansiedade, depressão, medo da recorrência e outros sintomas emocionais ao longo da jornada oncológica.

Isso porque estudos recentes mostram que o sofrimento psicológico associado ao câncer pode permanecer durante anos após o fim do tratamento. “Sabemos que é comum que pacientes relatem ansiedade, depressão e medo, frequentemente em taxas substancialmente superiores às observadas em controles pareados por idade. Mas precisamos avaliar quando essas respostas deixam de ser reativas e passam a comprometer a capacidade de seguir a vida, trabalhar, manter relações familiares e retomar projetos pessoais”, afirma Bergerot.

Na prática, isso significa que o impacto emocional do câncer pode continuar mesmo quando exames mostram controle da doença.

Pacientes jovens frequentemente relatam sensação de ruptura biográfica: planos interrompidos, perda da previsibilidade da vida, mudanças corporais abruptas e dificuldade de se reconhecer após o tratamento.

Há ainda desafios específicos dessa faixa etária que nem sempre fazem parte da rotina dos cuidados oncológicos, como sexualidade, parentalidade, inserção profissional e autonomia financeira.

“À medida que a sobrevida aumenta, nossa responsabilidade também precisa evoluir”, diz Bergerot. “O cuidado psicossocial não pode mais ser visto como um componente opcional do cuidado de suporte.”

Estudo brasileiro acompanhou mais de 2 mil pacientes e encontrou piora emocional ao longo do tratamento

Além da sessão educacional, Bergerot também apresenta na ASCO um estudo multicêntrico brasileiro que acompanhou a evolução do sofrimento emocional de pacientes com câncer durante o tratamento.

A pesquisa avaliou 2.197 pacientes atendidos em todas as regiões do Brasil e analisou como o risco de sofrimento emocional mudava ao longo da jornada oncológica. Os pesquisadores identificaram quatro perfis principais de risco emocional: pacientes emocionalmente estáveis, vulneráveis, persistentemente moderados e um grupo considerado crítico, com alto sofrimento psíquico.

Embora a maior parte tenha permanecido estável ou apresentado melhora durante o tratamento, uma parcela relevante piorou emocionalmente ao longo do tempo. Os dados mostraram ainda forte associação entre agravamento do sofrimento emocional e sintomas de ansiedade, depressão e pior qualidade de vida.

Para Bergerot, os resultados reforçam uma mudança importante na prática clínica: avaliar sofrimento emocional apenas em um único momento não é suficiente. “O sofrimento emocional no câncer não é estático; ele muda ao longo do tratamento. A triagem contínua e estratégias psicossociais adaptadas ao risco podem ajudar a identificar necessidades precocemente e oferecer um cuidado mais personalizado, integrado e centrado no paciente.”

A discussão reflete uma transformação mais ampla dentro da oncologia global, na qual a percepção de que indicadores tradicionais já não conseguem traduzir completamente os resultados do tratamento.

Em muitos centros, qualidade de vida, funcionalidade, saúde mental e reinserção social começam a ser considerados desfechos tão relevantes quanto controle tumoral. Na prática, isso implica ampliar equipes multidisciplinares, integrar psicólogos, psiquiatras, especialistas em fertilidade, assistência social e cuidados de suporte ao tratamento oncológico.

“Os pacientes apresentam sintomas emocionais diferentes ao longo de toda a trajetória da doença”, diz Bergerot. “Por isso, é fundamental integrar profissionais de saúde mental, especialistas em fertilidade e serviços de apoio social para evitar que essas dificuldades se agravem.”

Para especialistas, o desafio agora é transformar esse cuidado em rotina, e não exceção. Para uma geração que recebe o diagnóstico em plena construção da vida adulta, o câncer não ameaça apenas a sobrevivência, mas também projetos, vínculos, identidade e futuro. “Tratar o câncer também significa cuidar da vida que continua depois dele”, finaliza Cristiane Bergerot.