Sunday, 07 de June de 2026
por Marcius Túlio Amaral Pereira
Coronel da Reserva da PMMG
Tudo aquilo que me ensinaram ao longo da minha existência, moral, ética, respeito, lealdade, responsabilidade, honestidade, lisura de caráter, sinceridade, honra, civilidade, coragem, solidariedade e acima de tudo humildade parece sucumbir aos encantos da ambição exacerbada e incontida num momento de extrema turbulência na sociedade brasileira.
Essa mesma sociedade, impiedosamente marcada pelo chicote da impunidade, se acomoda diante do assédio vicioso e obscuro da clandestinidade que subleva o ganho fácil e a violência para impor a lei do mais forte como institucional.
Tudo parece conspirar contra as elocuções do Código Penal Brasileiro, numa espécie de regras em desuso, comprometendo todo o ordenamento jurídico nacional em nome da chamada modernidade eloquente que atordoa as bases de uma sociedade instituída para viver a “Ordem e Progresso” sob “O lábaro que ostentas estrelado” sob a máxima de que o “Filho teu não foge à luta”.
Tudo me leva a crer que o Art 287 do Código Penal Brasileiro foi revogado incontinenti pelos usos e costumes vigentes, concretizando, finalmente, a profecia de Rui Barbosa.
É inimaginável, inegociável, inaceitável, inconcebível e até inacreditável, perdoem-me as possíveis redundâncias, que uma sociedade que se diz politicamente organizada se permita discutir sobre a natureza ou a classificação ou reconhecimento internacional de facções criminosas como terroristas.
Tudo que cause terror é praticado por terroristas, terror é terror em qualquer lugar, é irrelevante determinar se é nacional ou internacional, o terror há de ser inimigo da humanidade, ou então que façamos coro que “nos olhos alheios é refresco”.
O que vi e ouvi sobre o Primeiro Comando da Capital, o PCC e o Comando Vermelho, o CV, protagonistas nacionais e internacionais do narcotráfico, me causa asco, é apavorante. Puro e sólido terror em seu ápice de crueldade e inconsequência, desprezo por vidas humanas, pelas regras sociais, pelos valores natos, pela cidadania e pelos interesses nacionais em nome de uma hegemonia sórdida e indefinida sob o ponto de vista humanitário.
A classificação, pelo Governo dos EUA, dessas facções criminosas como grupos terroristas internacionais é um direito inalienável do povo estadunidense, agora reconhecido oficialmente pelo seu governo, uma decisão interna considerando que os tentáculos desses grupos invadiram seu território de formas variadas a ponto de afetar sua segurança nacional.
Não é mais um problema brasileiro, lamentavelmente nos faltou competência ou vontade ou recursos para combater o terror dentro do nosso território, nossa inércia estampada abala as estruturas da nação, compromete nossa soberania a partir do momento em que interferem direta ou indiretamente em decisões estratégicas e nas políticas sociais.
Nossa ineficácia permitiu ramificações capilares nos círculos do poder viciando qualquer processo de combate consistente, a soberba arrogante de não aceitar ajuda externa é no mínimo curiosa, semelhante à França de Pétain.
Quero crer que as notícias de que o Comando do Exército Brasileiro questiona a medida do Governo dos EUA não passam de mentiras, conhecidas modernamente como fake News, ainda creio, com entusiasmo, na dignidade do nosso Exército.
Vivi para ver parte da população brasileira ombrear com a clandestinidade criminosa que tanto teme e se indigna diariamente.
Vivi para ver o sistema bancário brasileiro se curvar, temendo gastos com a vigilância e provavelmente perdas de investimentos em função da legitimidade e origem do dinheiro em movimento ou mesmo preocupada com pragmatismo do “follow the money”.
Vivi para ver algumas celebridades fazerem “cara de paisagem” ao abordarem o assunto.
Vivi para me sentir um inútil após servir, por 30 anos, no combate ao crime, e vê-lo florescer com glamour.
Vivi para ver uma magistrada brasileira se pronunciar preocupada sobre a inflação no preço da cocaína.
Vivi para ver e ouvir o líder máximo da nação afagar criminosos contumazes, narcoterroristas implacáveis de “nossos criminosos” ou “nossos terroristas” com tom de propriedade e classificar como nosso o terror que amordaça e amedronta o povo brasileiro no sentido de sina ou carma ou como patrimônio intransferível.
Paz e Luz.