EDUCAÇÃO
Estudo da UFJF-GV compara ensino tradicional e uso de tecnologias digitais nas aulas de Biologia
Quarta, 21 de outubro de 2026
Em um cenário educacional cada vez mais marcado pela presença de recursos digitais, uma pesquisa desenvolvida no campus Governador Valadares da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF-GV) buscou responder a uma questão cada vez mais presente nas salas de aula: o uso de tecnologias digitais torna o processo de aprendizagem mais efetivo do que os métodos tradicionais de ensino?
O estudo, intitulado “Do giz às telas: comparação de efetividade entre abordagens tradicionais e tecnológicas no ensino de Biologia”, comparou o desempenho de estudantes do segundo ano do ensino médio de uma escola pública de Governador Valadares submetidos a duas diferentes abordagens para o ensino de Citologia, área da Biologia que estuda as células.
Fruto da dissertação de mestrado de Gilson Bruno Souza e Silva, professor da rede pública de ensino e egresso do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Biologia em Rede Nacional (PROFBIO), o estudo foi publicado recentemente na revista @rquivo Brasileiro de Educação. O artigo também tem como autores os professores Roberto Queiroga Lautner e Márcio Luís Moreira de Souza, ambos da UFJF-GV.
A pesquisa compara a efetividade do método tradicional de ensino com o uso de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) e foi desenvolvida em parceria com o Centro de Educação a Distância (CEAD), responsável pela produção de vídeos didáticos sobre células eucariontes, elaborados a partir de uma sequência didática previamente construída pelos pesquisadores.
Além de comparar o desempenho dos estudantes submetidos às diferentes metodologias, o trabalho utilizou métodos estatísticos para a avaliação das amostras e testes psicométricos com os participantes. Dessa forma, os pesquisadores também investigaram possíveis relações entre características de personalidade e o método de ensino empregado.
De acordo com os resultados, o método tradicional de ensino, baseado na centralidade do professor, mostrou-se mais efetivo para a aprendizagem nas condições investigadas, independentemente do perfil psicológico e cognitivo dos estudantes.
Os dados também apontaram diferenças na resposta dos estudantes às plataformas digitais. Aqueles com maior nível de neuroticismo, característica associada a uma maior tendência a experimentar emoções negativas, apresentaram menor benefício com o uso desses recursos. Já estudantes com menor nível de extroversão e maior estabilidade emocional apresentaram melhor aproveitamento quando submetidos à mediação tecnológica.
A experiência de Gilson como professor da rede pública de ensino também contribuiu para sua reflexão sobre os resultados da pesquisa. Ao relacionar a investigação acadêmica aos desafios que vivencia em sala de aula, ele destaca que a escolha das metodologias deve considerar as particularidades dos estudantes e o contexto de aprendizagem. “Não se trata de escolher entre tecnologia e ensino tradicional, mas de compreender como, quando e para quem cada estratégia pode contribuir melhor. Os estudantes não aprendem todos da mesma maneira, e uma estratégia que funciona muito bem para alguns pode não produzir o mesmo efeito em outros”, avalia.
Segundo o pesquisador, as análises psicométricas permitiram aprofundar essa compreensão, ao investigar aspectos individuais que podem influenciar a maneira como cada estudante responde a uma determinada metodologia. Para ele, essa perspectiva abre caminhos para novas pesquisas sobre o uso de recursos digitais na educação. “A pergunta não deve ser apenas se uma tecnologia funciona, mas para quem ela funciona, em quais condições e com qual mediação pedagógica pode apresentar melhores resultados”, destaca Gilson.
Para Roberto Queiroga Lautner, os resultados ganham relevância diante das transformações pelas quais passa a educação, especialmente com a expansão do uso de tecnologias digitais e da inteligência artificial. “O trabalho lança holofotes para um debate importante, especialmente no cenário em que o uso em massa de IA coloca em xeque a importância da figura do professor”, explica.
Deste modo, os pesquisadores concluem que os dados podem contribuir para a sociedade e para a comunidade acadêmica, ao acrescentar elementos à discussão sobre metodologias de ensino e aprendizagem e sobre os efeitos da incorporação de tecnologias ao processo educacional.